SITUAÇÃO POPULACIONAL DO LOBO EM PORTUGAL 2019/2021
Fotografia: João Ferreira
Introdução
Decorridas duas décadas após o anterior censo nacional de lobo, realizado em 2002/2003 e dada a importância de se dispor de informação atualizada e resultante da aplicação de uma metodologia uniforme para todo o território, num mesmo período de tempo, tornou-se necessário desenvolver um novo censo nacional, com os seguintes objetivos
- Determinar a presença de lobo por quadrícula UTM 10x10km;
- Determinar o número e localização das alcateias existentes;
- Determinar a ocorrência de reprodução em, pelo menos, duas épocas reprodutoras;
- Cartografar os locais de reprodução identificados;
- Compilar a informação prévia existente para cada alcateia e zonas de presença da espécie.
Espera-se que este conhecimento contribua para assegurar a necessária compatibilização das atividades humanas com a presença de lobo e, consequentemente, para alcançar um estado de conservação favorável desta espécie.
Metodologia
Numa primeira fase procedeu-se à compilação da informação sobre a presença de lobo, obtida entre 2014 e 2018. A compilação dos dados obtidos entre 2004 e 2013 já tinha sido realizada para a caracterização da Situação de Referência do Plano de Ação para a Conservação do Lobo em Portugal.
Tendo em conta que vários projetos de monitorização dirigidos ao lobo estavam em curso durante a realização do censo nacional 2019/2021, foi estabelecido, entre o ICNF e todas as entidades responsáveis pelos mesmos, um “Memorando de entendimento para partilha de informação no âmbito do Censo Nacional de Lobo-ibérico 2019-2021”, com o objetivo de (i) potenciar a correta articulação na execução do trabalho de campo, (ii) evitar a duplicação de esforços e o aumento de perturbação e (iii) assegurar a devida partilha da informação e/ou amostras biológicas entre as equipas executantes dos trabalhos
O trabalho de campo para determinar a presença de lobo e de alcateias, bem como da sua reprodução, decorreu entre junho de 2019 e outubro de 2021, com recurso a vários métodos de recolha de dados, habitualmente utilizados em trabalhos de monitorização desta espécie, nomeadamente:
- Percursos para deteção de indícios de presença da espécie;
- Análise genética de indícios de presença para confirmação da espécie;
- Estações de escuta e/ou de espera para deteção das alcateias e da ocorrência de reprodução;
- Instalação de câmaras e gravadores automáticos para apoio à deteção visual e acústica de lobos.
Para garantir uniformidade e um elevado nível de segurança na interpretação dos dados recolhidos, foram estabelecidos critérios para análise dos mesmos. Estes critérios são semelhantes aos adotados no anterior censo nacional realizado em 2002/2003, com as adaptações necessárias, tendo em conta as novas metodologias utilizadas.
Nota importante: A área circular atribuída a cada alcateia constitui apenas uma forma de representar aproximadamente a área que a mesma ocupa, não abrangendo todo território utilizado nem, por vezes, todos os centros de atividade conhecidos. O centróide desta área não tem correspondência com os locais de reprodução e/ou centros de atividade identificados.
Para conhecimento da área aproximada utilizada pelas alcateias, são mencionadas as quadrículas UTM 10x10km que abrangem, de forma total ou parcial, o território de cada alcateia representada no mapa interactivo.
As áreas de reprodução/centros de atividade de cada alcateia são áreas sensíveis à perturbação pelo que a sua cartografia não é de acesso público. No entanto, a sua localização poderá ser disponibilizada pelo ICNF, no âmbito de processos de avaliação de impacto ambiental, entre outros.
Resultados
Presença de lobo por quadrícula UTM 10x10 km e áreas estimadas de presença regular e irregular no censo nacional 2019/2021
Localização das alcateias detetadas em Portugal no censo nacional 2019/2021
Durante o censo nacional de lobo 2019/2021, foram detetadas 58 alcateias, das quais se confirmou a presença de 56 e se considerou provável a presença de 2. A grande maioria ocorre a norte do rio Douro, distribuídas por três núcleos populacionais (Peneda/Gerês, Alvão/Padrela e Bragança), existindo apenas cinco a seis alcateias no núcleo populacional que ocorre a sul deste mesmo rio.
Comparação do número de UTM 10x10 km e área correspondente onde foi detetada a presença de lobo, por núcleo populacional, entre 2002/2003 e 2019/2021
| UTM 10×10 km (n) | Área (km2) | Variação | ||||||
| Núcleo | 2002/2003 | 2019/2021 | 2002/2003 | 2019/2021 | ||||
| Peneda/Gerês | 57 | 55 | 4.600 | 4.400 | -4% | |||
| Alvão/Padrela | 34 | 25 | 3.300 | 2.400 | -27% | |||
| Bragança | 69 | 50 | 5.700 | 3.900 | -32% | |||
| Sul Douro | 70 | 52 | 6.800 | 5.000 | -26% | |||
| Total | 230 | 182 | 20.400 | 15.700 | -23% | |||
UTM 10×10 km (n) | ||||
Núcleo | 2002/2003 | 2019/2021 | ||
Peneda/Gerês | 57 | 55 | ||
Alvão/Padrela | 34 | 25 | ||
Bragança | 69 | 50 | ||
Sul Douro | 70 | 52 | ||
Total | 230 | 182 | ||
Área (km2) | Variação | |||
Núcleo | 2002/2003 | 2019/2021 | ||
Peneda/Gerês | 4.600 | 4.400 | -4% | |
Alvão/Padrela | 3.300 | 2.400 | -27% | |
Bragança | 5.700 | 3.900 | -32% | |
Sul Douro | 6.800 | 5.000 | -26% | |
Total | 20.400 | 15.700 | -23% | |
Presença de lobo, por quadrícula UTM 10x10 km, estimada em 1994/1996, 2002/2003 e 2019/2021
Comparando a área onde foi detetada a presença de lobo no censo 2002/2003 e no censo 2019/2021, os resultados apontam para uma redução na ordem dos 20% da área de presença de lobo em Portugal nas duas últimas décadas, nomeadamente na região de Trás-os-Montes e a Sul do rio Douro.
Comparação do número total de alcateias, confirmadas e prováveis, por núcleo populacional, entre 2002/2003 e 2019/2021
| Núcleo | 2002/2003 | 2019/2021 | Variação |
| Peneda/Gerês | 16 | 24 | +50% |
| Alvão/Padrela | 13 | 6 | -54% |
| Bragança | 25 | 22 | -12% |
| Sul Douro | 9 | 6 | -33% |
| Total | 63 | 58 | -8% |
Núcleo | 2002/2003 | 2019/2021 | Variação |
Peneda/Gerês | 16 | 24 | +50% |
Alvão/Padrela | 13 | 6 | -54% |
Bragança | 25 | 22 | -12% |
Sul Douro | 9 | 6 | -33% |
Total | 63 | 58 | -8% |
Alcateias detetadas no censo 2002/2003 e no censo 2019/2021
O número de alcateias detetadas sofreu uma ligeira redução a nível nacional desde o censo nacional 2002/2003, tendo passado de 63 para 58, com diferentes tendências nos núcleos populacionais existentes. No núcleo da Peneda/Gerês registou-se um aumento do número de alcateias detetadas, tendo-se verificado uma diminuição nos restantes três núcleos. A diminuição do número de alcateias foi mais evidente na área do núcleo Alvão/Padrela, cujo número de alcateias estimado sofreu uma redução superior a 50%, sendo também preocupante a redução registada na zona do Planalto Mirandês e a Sul do rio Douro.
Área de presença regular de lobo estimada em 1994/1996, 2002/2003 e 2019/2021
Fontes a citar:
Pimenta V, Barroso I, Álvares F, Barros T, Borges C, Cadete D, Carneiro C, Casimiro J, Ferrão da Costa G, Ferreira E, Fonseca C, García EJ, Gil P, Godinho R, Hipólito D, Llaneza L, Marcos Perez A, Martí-Domken B, Monzón A, Nakamura M, Palacios V, Paulino C, Pereira J, Pereira A, Petrucci-Fonseca F, Pinto S, Rio-Maior H, Roque S, Sampaio M, Santos J, Serronha A, Simões F, Torres RT (2023). Situação populacional do lobo em Portugal: Resultados do censo nacional de 2019/2021. ICNF, Lisboa, 145p.
Pimenta V, Barroso I, Álvares F, Correia J, Ferrão da Costa G, Moreira L, Nascimento J, Petrucci-Fonseca F, Roque S, Santos E (2005). Situação populacional do lobo em Portugal: Resultados do censo nacional 2002/2003. Relatório técnico. Instituto da Conservação da Natureza/Grupo Lobo (eds.), 158 p.
ICN (1997). Conservação do lobo em Portugal. Projeto realizado ao abrigo do Programa LIFE. Relatório final. Lisboa, 231 p.
Entidade coordenadora